Quarta, Fevereiro 08, 2012

A Tribo do Fado entrou a bordo e o Fado aconteceu!

Estórias - Entrevistas

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Funchal Carlos do Carmo e acompanhantesComo dizem os Fadistas, o Fado acontece ...ou não!
No Cruzeiro do Fado,  o Fado aconteceu. Houve atmosféra.
  

 

 

Entraram tímidos. Muitas milhas e vários encores depois, os Fadistas Amadores* simples hóspedes, guitarristas e cantores saíram animados. 
Este foi o mais Português dos Cruzeiros e o primeiro Cruzeiro do Fado.

No final, cansados, mas animados, todos desembarcaram contando os dias e os meses para a realização do próximo, o 2º cruzeiro do Fado. Se isso acontecer esperamos lá estar para vos transmitir as emoções dum cruzeiro, que é o Cruzeiro do Fado.

Nas palavras da Dra. Sara Pereira, Directora do Museu do Fado, naqueles dias o que aconteceu foi uma “reunião de família”. Estiveram reunidos fadistas, músicos e pessoas que gostam do fado e parafraseando Carlos do Carmo, esteve ali a Tribo, a Tribo do Fado.

As horas iam altas e os balanços do Paquete Funchal faziam-se sentir. Estavamos nós Dra.Sara Pereira e Professor Rui Nerysentados no Salão Ilha Verde, onde tinha acabado de actuar Carlos do Carmo, no espectáculo de encerramento do Cruzeiro do Fado do Funchal e a Dra. Sara Pereira transparece a sua satisfação sobre a missão cumprida, com o programa, com os artistas e com a adesão que tinha tido o primeiro Cruzeiro do Fado.


Diz-nos a Directora do Museu do Fado (na imagem ao lado do Professor Rui Nerry)  “Tivemos o privilégio de contar com grandes nomes, com Carlos do Carmo, com José Pracana, com artistas de diferentes sensibilidades e de diferentes percursos artísticos e que enriqueceram exponencialmente aquilo que podia ser este primeiro Cruzeiro do Fado.”


Esta experiência foi um bom pontapé de saída, pensando no próximo cruzeiro  “Aliás isto foi um balão de ensaio e queremos voltar a repetir. Isto serviu para testar. Queremos afinar a articulação. A nossa programação com a programação do próprio cruzeiro. Foi excelente e muito positivo e os artistas estão muito satisfeitos e isso para nós é fundamental”, diz-nos a Dra. Sara Pereira com o olhar no próximo cruzeiro e no próximo ano.
Sobre a inclusão do Fado de Coimbra numa próxima edição do Cruzeiro do Fado,  mostrou-se receptiva num cruzeiro com mais dias e sobretudo num percurso mais longo, onde haverá mais tempo.

 

Carlos do Carmo e a sua "Tribo"

Carlos do Carmo, considera a realização deste cruzeiro como muito interessante “nuncaFunchal_Carlos_do_Carmo_em_entrevista me passou pela cabeça que isto pudesse  acontecer. Nos Últimos 10 anos temos feito um trabalho de formiguinha, um grupo de pessoas, algumas são anónimas outras têm expressão publica, no sentido de cuidarmos do Fado, como quem cuida de um jardim, de uma flor, regá-lo.
Eu tenho cantado no mundo inteiro, estou a falar da China, da Rússia, dos Estados Unidos, da Austrália, não faz sentido nós próprios que não percebermos que temos aqui uma coisinha simples, sim, por o fado não é uma coisa muito elaborada, mas que vale a pena, e que os outros reconhecem que aqui há uma coisa muito especial."

Hoje foi o primeiro dia dos três, em que eu resolvi armar-me em inspector, eu costumo sair com os meus amigos, saímos conversamos e resolvi ficar para perceber o que se passa e é extraordinário, na entrada há uma exposição de fotografias, subi , num dos bares  estava amadores a cantar, num outro bar estavam uns jovens, que eu não conheço de lado nenhum, a tocar guitarra com grande entusiasmo. Depois para o salão estava o Rui Viera Nery a apresentar o filme do Carlos Saura, depois fizemos à noite um colóquio sobre o Fado. O barco foi tomado de assalto e não vejo ninguém contrariado. As pessoas comparecem, participam, fazem perguntas, interessam-se. Acho que é uma coisa conseguida e que merece muita reflexão. Acho que o próximo cruzeiro que se vier a fazer deve ser muito ambicioso, mas isto foi um balão de ensaio e nós temos de aprender a lição toda."


O Fado a Bordo

Carlos do Carmo"Isto é um balão de ensaio e as pessoas são muito bem atendidas, porque os empregados são impecáveis, servem, estão disponíveis, come-se bem , isto é a base da questão. há sol, as pessoas são livres, agora este lado especial que é a motivação chave e tanto quanto eu soube o número de pessoas a vir ao cruzeiro por causa do fado é de  70%, isto é muito elevado -  isto foi o que me disseram, não sei se é verdade. “
Sobre o Paquete Funchal e sua tripulação Carlos do Carmo é categórico “Os empregados são porreiríssimos, estão habituados aos nórdicos que caiem para o chão bêbados, caiem que nem cachos e eu ainda não vi nenhum português bêbado neste barco, mas as pessoa bebem, com moderação.
O Paquete Funchal está bem equipado humanamente, as pessoas são agradáveis. Sabe o comandante, é uma pessoa que se vê que tem um grande traquejo do ponto de vista Social, é um Senhor e isso é à partida é uma garantia. E depois todo o seu staff misturado, portugueses misturados com gente estrangeira. O goFunchal_piscinasto de servirem à mesa e de se preocuparem, estamos a falar de empregados de mesa que servem pequeno almoço, almoço, lanche, jantar e em dois turnos, é violento. Eu nunca vi um empregado nestes três dias com má cara e se eles têm razão estar cansados. Tudo isto é uma série de qualidades. Nós Fado, temos de estar à altura disto.

Sobre Lisboa diz-nos que “é das poucas cidades do mundo que têm o privilégio de ter uma canção, são muito poucas as cidades que têm uma canção. Depois se soubermos cuidar disto tudo e no grupo de trabalho soubermos ir aperfeiçoando as coisas vão acontecendo e Tribo do Fado, como eu gosto de lhe chamar vai sendo valorizada através do que toca, do que canta, vai tendo mais mercado de trabalho e mais responsabilidades e porque a Directora do Museu do Fado chamou a atenção disto e disse nós vamos fazer um cruzeiro do Fado, e estas loucuras são precisas.

 

José Pracana o Director Artístico do Cruzeiro do Fado

Como nos dizia o Professor Rui Vieira Nery sobre José Pracana - “uma figura interessantíssima, é a memória viva do Fado, que conheceu toda a gente e que tocou com toda a gente


O Fado e a SaudadeJosé Pracana num passeio a Tânger


Sobre o Paquete Funchal, recorda o seu nascimento nos Açores e e o tempo em viajava no Paquete e vinha de S. Miguel para Lisboa. Outras vezes viajava  no navio Carvalho Araújo ou no Angra. “Isto foi o regressar à minha infância. Eu nasci em S. Miguel e aos dez anos vinha para o Colégio Militar e vínhamos de barco. Eu sou uma pessoa que sabe o que é ter saudades.

Em 56 altura não havia telemóveis e o telefone não funcionava e era caro, por isso este ingrediente que também faz parte do Fado, que é a Saudade, que é fundamental estava associado. Eu vim matar saudades aqui no Funchal e saudades com o Fado.
Sobre o Fado e o momento actual diz-nos que “nunca se viveu tão bom momento tenho a impressão. Esteve quase a morrer mas estabilizou.  Há uma figura a quem se deve todo este movimento que é a Amália, foi ela que revoluciona a guitarra.


A Amália foi a primeira pessoa a perceber que, para ser uma artista internacional não se podia limitar ao fado e começou a cantar outras coisas e ela podia cantar o que quisesse. A Amália pegava em cada canção e era sempre um sucesso porque tinha uma voz e um talento extraordinário e começou a fazer uns programas não só com o fado mas com outras coisas, para ter audição lá fora. Esta gente nova faz exactamente a mesma coisa e além disso começam a fazer um fado mais elaborado, com novos fados que saem do tradicional do Marceneiro, do Carlos Ramos, com a Sestilha, com a Quintilha, com a Quadra, o chamado fado tradicional castiço.Os cruzeiros temáticos

Para José Pracana "os cruzeiros temáticos têm muita piada e há muitos mais temas que se podem pegar como por exemplo a gastronomia, o teatro. É uma maneira das pessoas trocarem impressões".

 

Professor Rui Vieira Nery e o projecto de Candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade, pela Unesco.

As formalidades diplomáticas, jurídicas e administrativas em execussão, não dependem da candidatura propriamente dita. Portugal teve de subscrever a Convenção da UNESCO, onde  prévia a Declaração de Património de Cultural e Imaterial da Humanidade. Posteriormente  foi feita a transposição através de um Decreto-Lei, para a legislação nacional, algo que aconteceu há 2 meses atrás e agora tem de publicar uma Funchal chegada cidade do Fadoportaria que regulamenta o concurso. Diz-nos o Professor Nery que “Existem uma série de exigências. É preciso começar a fazer o inventário nacional do património imaterial e o Fado tem de estar registado nesse inventário. Admito que no próximo verão estaremos em condições de apresentar a candidatura. Pelo nosso lado estamos e a fazer o Trabalho de Campo, a preparar e o trabalho está a avançar muito bem."


Fazemos votos de que no próximo cruzeiro do Fado (na sua segunda edição), possa ocorrer a celebração da passagem do Fado a Património Imaterial da Humanidade, pela Unesco.

Esperamos que o próximo Cruzeiro não seja apenas o cruzeiro do Fado de Lisboa.  A riqueza do nosso património fadista é tanta que permite a inclusão de outras formas de Fado cantadas noutras regiões.

 

* Todos os que amam o Fado

 

 

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