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Escrito por Fernando Santos Sábado, 03 Abril 2010 16:11
António Nicolau, 60 anos de idade trabalha a bordo há mais de 20 anos. É o Chefe de Sala do Paquete Funchal e um dos primeiros tripulantes que se conhece quando se chega a bordo.
Na Classic International Cruises a escolha do turno de refeição, da mesa e lugar é opção do hóspede. É o Sr. Nicolau que atende oos pedidos e regista esses dados.
A sua dedicação e boa vontade ajudam a resolver muitas das situações que são colocadas pelos hóspedes. Já quase não existem imprevistos que não conheça ou que não consiga prever. A experiência vai sendo transmitida aos elementos da sua equipa, composta por empregados de mesa de diferentes nacionalidades.
Enquanto muitos outros profissionais são formatados para actuar e responder sempre da mesma forma, com o Sr. Nicolau é a sua própria expontâniedade e muitas vezes o improviso que fazem dele um elemento de referência no Paquete Funchal.
Os seus olhos comovem-se quando fala das suas equipas, ou quando se recorda e descreve as múltiplas decorações que já fez do salão de refeições “ali coloco uma mesa onde fica o Comandante, mas como não pode ficar de costas para os nossos passageiros ele senta-se ao centro mas voltado nesta direcção. Quando tenho uma noite temática, fica tudo muito bonito e a condizer...” exemplifica o Sr. Nicolau.
Um "motivador das pessoas"
Após o seu regresso de Angola em meados dos anos 70, António Nicolau trabalhou num restaurante de Passo D`Arcos. A esse espaço era frequentado por Comandantes de navios. “Certo dia apareceu um senhor que acompanhado de alguns comandantes. Eu julgava que também era Comandante, mas que era o Tiago Gouveia Cardoso, o Presidente do Sindicato da Marinha Mercante. Ele viu as minhas qualidades e disse - o mar precisava de um homem como você.
Ele sacou de um livro e perguntou-me se eu queria ter um livro igual. O livro era uma Cédula Marítima, mas para o ter tive de passar em vários exames: um curso natação, exames médicos e tive até de tirar umas fotografias. A minha folga era na quarta-feira seguinte, recebi umas informações do Sr. Tiago Gouveia Cardoso e fiz os exames. Tratei de tudo em segredo, sem dizer nada ao meu patrão na altura. Passado pouco tempo lá fui apanhar o “barco” a Piréus, na Grécia.
Os passageiros chegaram-me a dar comprimidos para o enjoo. Aconteceu uma vez somente!
Fiz durante um ano a Volta ao Mundo no Vasco da Gama, o então antigo Infante D. Henrique. Fui como empregado de mesa, custou-me muito no princípio porque eu enjoei bastante, até os passageiros reparavam que eu estava terrivelmente mal davam-me comprimidos. Eu queria mesmo era vir embora. Foi um verdadeiro baptismo e nunca mais enjoei até hoje, com mais vinte anos de mar.
Terminada a Volta ao Mundo o navio passou por Lisboa, então a tripulação teve uma reunião com o Sr. Potamianos, que nos disse que, aquele navio era muito dispendioso e que provavelmente iríamos passar para outro navio. Foi-nos perguntado se nós queríamos. Passámos todos para o Funchal. Dessa equipa apenas permaneço eu e o meu colega João Luís, o Hotel Manager.
As políticas da companhia mudaram, nessa altura éramos só portugueses, mas cada vez menos os portugueses querem embarcar, porque esta é uma vida dura. Nem toda a gente quer estar fora da familia meses e meses, às vezes um ano. Eu já fiz várias campanhas de um ano, sem sábados nem domingos, nem feriados e só descanso quando desembarco, ninguém nos obriga a fazer isso mas isso é uma opção nossa para ganhar dinheiro.
InfoC - E é interessante sob o ponto de vista económico?
AN – Sim é. Porque aqui não o gastamos. Levanto-me e tenho uma pessoa que me faz a cama, que me leva a roupa à lavandaria. Tenho a vantagem de ser tudo muito mais barato. Eu compro um maço de tabaco por metade do preço que compro em Portugal, tax free. Sem vícios, nem há onde se gastar o dinheiro. Se se eu quiser ir ao bar da tripulação beber uma cerveja o e aí são 0,50 €, um whisky a mesma coisa. Não sou de beber e faço uma vida regrada. A comida está incluída no ordenado, por isso tudo o que vem é lucro. Em terra quando saio de casa estamos logo a gastar, aqui não, economizamos o ordenado.
As notícias limito-me a ler o que sai no jornal de bordo e as actividades diárias. Nos jornais que são distribuídos na recepção, tomo conta das notícias do mundo.
InfoC – E as noticias na internet?
AN – Sim também e conforme a nacionalidade dos passageiros, vou sabendo do que se passa, se são portugueses, belgas, etc.
InfoC- Ao longo destes anos tem vivido algumas histórias curiosas. Quer contar-nos?
AN – Lembro-me dum casal de ingleses, que não se conheciam de lado nenhum. Eu fiz a reserva de mesa para pessoas que viajavam individualmente. Coloquei-os numa mesa de oito em que o intervalava um senhor e uma senhora, de cabines diferentes, as pessoas vinham viajavam sózinhas. Um desses senhores e uma senhora, apaixonaram-se e no ano seguinte vieram fazer o casamento a bordo. O casamento foi feito na Ponte de Comando, com o Comandante a assistir e veio um padre celebrar o casamento. Decorei com flores toda a Ponte, na fronte do navio. Veio o Bar Manager, com os Barmans servir champanhe, eu mandei preparar canapés e foi uma cerimónia simples, umas de vinte pessoas. Foi muito engraçado.
Eu costumo dizer que sou o James Bond, o 007
Nós não sabemos nada das pessoas. Vêm anónimas e por portas e travessas, vimos a descobrir que as pessoas vêm comemorar qualquer coisa, por vezes são 50 anos de casados. Eu apareço com um bolo a desejar felicidades e as pessoas sem esperarem agarram-se a mim soluçando, a chorar de alegria, pois não pensavam que nós pudessemos saber desse acontecimento. Normalmente é algum amigo me dá a informação secretamente, sem alarido e que por vezes até está sentado numa mesa ao lado.
Com os aniversários é diferente. A partir do passaporte ou Bilhete de identidade cujos dados estão registados na lista de passageiros é mais fácil.
Hoje, por exemplo, eu vou ter 7 aniversários no jantar. Só que quatro deles não são hoje, são amanhã, mas eu quero que essas pessoas levem de recordação, essa é a nossa prenda e quero que saibam que o Nicolau pensou nelas, embora amanhã não estejem cá dentro para lhes cantarmos os parabéns, fiquem a saber que nos lembrámos deles. Oficialmente só há três bolos, mas eu por esse motivo vou passar sete.
Por outro lado, uma vez passei uma situação que me marcou, ou melhor, em que apanhei um susto, mas não muito agressivo. Uma vez ficámos em black-out e o navio ficou descontrolado, vinhamos da Noruega. Estava cá um Comandante (não o actual), esse é era homem muito calmo. Ele avisou e madou avisar que havia a possibilidade de irmos chocar ciom alguma coisa. Então chocámos contra uma grande rocha, nos Fiórdes da Noruega e a Prôa em férro ficou um bocadinho amachucada. Não houve feridos, porque todos foram devidamente avisados. As psssoas foram colocadas em segurança de maneira que não fossem cuspidas. Lembro-me que todos vestiram o colete de salvação. Eu vim para a área do casino, eu era na altura empregado de mesa, foi em 92. Só me lembro de umas plantas terem caído para o chão alí na área de Casino e nada mais aconteceu.
Uma vez estava a tomar um café no bar Porto e, olhei pela janela e deixei de ver água, olhei novamente, vejo a água na “vigia”, só faltava ver os peixes e vejo o piano do bar Porto dar uma cambalhota e ficar ao contrário. E os passageiros irem contra o piano, parecia os desenhos animados da Pantera Cor de Rosa, que batia com a cabeça nas coisas e viam umas estrelinhas. Os passageiros no meio daquilo tudo, levaram para uma brincadeira e ninguém se aleijou.
A bordo, com mau tempo as precuções aumentam!
Sempre que o tempo piora, o Director de Cruzeiro avisa para os passageiros terem cuidado e para não andarem nos deck exteriores, pois
podem escorregar. É uma medida de precaução e evitam os desastres.
InfoC - Ao longo dos anos, já aconteceu ter tido algum pedido especial por parte dos seus hóspedes?
AN – Nunca tive. Mas lembro-me de num concurso que fazemos a bordo, intitulado – O Par Ideal. Nesse concurso fazem-se perguntas individualmente a cada membro do casal, sem um ou outro ouvirem. Um das perguntas era – qual o lugar mais exótico o senhor fez amor? E o senhor respondeu: “foi na baleira número 12, aqui a bordo. “ Eu estava a assistir a esse a esse programa, dei uma gargalhada e a Directora do Cruzeiro virou-se para mim e perguntou-me a razão de me estar a rir, ao que eu respondi que, eu não estava lá, mas eu sou o chefe dessa baleira. E Achei muito engraçado.
Por vezes dizem-me: “Oh Sr. Nicolau, a minha mulher hoje faz anos e não se importa de me arranjar umas flores... “ e às vezes a bordo nem sempre há flores frescas, sobretudo quando há cruzeiros de longa duração. Então eu vou procurando algumas flores que ainda estão boas em várias zonas do navio e faço ums bouquets muito bonitos e nunca deixo o passageiro sem fazer tudo o que está ao meu alcance para o ajudar e lá aparece um ramo para ser oferecido nessa ocasião especial.
O Sr. Nicolau, é uma figura conhecida de muitos milhares de passageiros do Funchal ao longo dos anos. Ele transporta para o seu dia-a-dia o romantismo da vivência dos cruzeiros do passado. É um autodidacta que se adaptou ao passar do tempo, num tempo que para ele quase não passa. Provavelmente noutra companhia não se sentiria bem.
É a bordo do navio que a faz sua casa, recebendo os “seus amigos”, que cruzeiro após cruzeiro regressam a esse emblemático navio de bandeira portuguesa que o Paquete Funchal.
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